O Fantstico Mistrio de Feiurinha


         Pedro Bandeira


       Capa de Avelino Guedes



Projeto Literatura em minha casa
         A importncia da Leitura


         Podemos abordar a importncia da leitura e da literatura sob diversos
aspectos: dizer que ambas promovem o desenvolvimento cognitivo da criana, que
constituem o eixo fundamental para a aquisio da escrita e o aprimoramento da
capacidade simblica.
         Essas questes so relevantes; no entanto, o grande mrito da leitura e da
literatura  a fruio esttica que ela nos oferece.
         Uma bela histria  capaz de refletir nossas sensaes mais ntimas e
universais: o amor, a rejeio, o medo, a alegria, o cime...
         Alm disso, atravs do texto literrio unimos razo e intuio.
         Esse espao interior  um territrio privilegiado que s a obra de arte nos
proporciona. Ela nos ajuda a resistir  mediocridade do mundo contemporneo, essa
"terra de ningum" repleta de informaes fragmentadas e modismos impostos ao
indivduo desde a sua infncia.
         O filsofo Theodor Adorno no seu livro "Minima Moralia" fez uma anlise
exemplar dessa questo: "...a pressa, o nervosismo e a instabilidade observados
desde o surgimento das grandes cidades alastram-se nos dias de hoje de uma forma
to epidmica quanto outrora a peste e o clera".
         Por essas razes, o projeto "Literatura em minha casa"  to importante: ele
incentiva a criana a resgatar sua imaginao criadora, aquele "cantinho" individual
para refletir e apreciar um bom livro. Afinal, a introspeco e o devaneio tambm so
importantes para o desenvolvimento da inteligncia...
         Sob todos os aspectos apresentados acima, Feiurinha  bem-vinda: nesta
histria, a herona  uma princesa que desaparece de modo misterioso. Branca de
Neve, Cinderela, Chapeuzinho Vermelho junto com outras personagens resolvem
pedir ajuda ao escritor para encontr-la.
         No enredo esto presentes o jogo constante entre realidade e fantasia, a
referncia aos contos de fadas,  literatura oral e muitas observaes divertidas sobre
o processo de criao do escritor.
         Outro grande recurso do texto  o humor subvertendo a ordem dos fatos,
revelando a substncia verdadeira que existe por trs das aparncias.
        Alm disso, esta  uma tima oportunidade para apresentar  criana um
texto teatral, com suas diferenas em relao ao texto narrativo: os dilogos, as
indicaes para os atores, a descrio dos cenrios...
        O leitor descobrir que  prazeroso ler uma pea no s para encen-la, mas
tambm pelo gosto da leitura em si mesma.
        Outro elemento importante desta obra: faltam bons enredos no teatro
brasileiro para crianas. H uma carncia de peas que tenham ao -- sem que isso
signifique simples correria no palco -- e, principalmente, textos dramticos ancorados
em idias consistentes, que respeitem a inteligncia do pequeno leitor.
        Ou como disse Joo Paulo, aos dez anos de idade: "Tem adulto que acha
que criana no pensa. Mas eu penso e duvido desde o Jardim da Infncia!"
        Este livro no duvida disso!


                                                                           Anna Flora




                   O Fantstico Mistrio de Feiurinha


                           Pea teatral em um ato

        Personagens


        Escritor
        Caio, o Lacaio
        Dona Branca Encantado
        Dona Cinderela Encantado
        Dona Rapunzel Encantado
        Dona Bela Adormecida Encantado
        Dona Bela-Fera Encantado
        Senhorita Chapeuzinho Vermelho
        Jerusa
        Feiurinha
        Prncipe
        Ruim
        Malvada
        Piorainda
        Belezinha
        Pai da Feiurinha
        Me da Feiurinha
        Bode Encantado (pode ser uma marionete)




        Cenrios


        So quatro ambientes. Os trs primeiros vo alternar-se no centro do palco e
o quarto (a sala de trabalho do Escritor) estar o tempo todo  esquerda do proscnio
(*1):


        1 cenrio: O salo do castelo da Dona Branca Encantado, que deve sugerir
o luxo de histrias de fadas. Cadeiras de espaldar alto, forradas de vermelho e
pintadas de dourado, um canap do mesmo jeito, cortinas de veludo vermelho, um
grande espelho com moldura exagerada e a esquadria de uma imponente porta de
entrada do salo protegida por batedeiras pretas. Ao fundo, rotunda (*2) preta. O
ambiente aristocrtico e de luxo pode ser sugerido por uma grande janela, com vitrais
coloridos, por onde passa luz, projetando as cores por todo o cenrio. Ao lado da
cadeira principal, que ser ocupada pela Dona Branca Encantado, desce do alto um
vistoso puxador de campainha, com o qual ela chamar Caio, o Lacaio.


        * Consulte o "Pequeno glossrio do teatro", l voc encontrar o significa   do
de termos e expresses utilizados no teatro.
        2 cenrio: A humilde casa dos pais de Feiurinha.
        3 cenrio: O interior da pavorosa casa das bruxas.
        4 cenrio: A sala de trabalho do Escritor, que dever permanecer durante
toda a pea. Uma estante cheia de livros, uma mesa com uma mquina de escrever,
atulhada de papis em desordem, a cadeira de trabalho do Escritor e uma pequena
poltrona de visita, na frente da mesa. Durante as cenas na sala do Escritor, a
empregada Jerusa entra e sai s vezes varrendo, s vezes vindo recolher os papis
jogados no cesto de lixo, s vezes retirando uma bandeja com um bule de caf,
espanando mveis, arrumando os livros na estante etc. Em todos esses momentos,
ela nada fala e ningum se dirige explicitamente a ela.


        Antes do incio do espetculo, a platia j pode ver o primeiro arranjo do
cenrio: a sala de trabalho do Escritor e, em todo o resto do palco, o salo do castelo
de Dona Branca Encantado.


        Depois do terceiro sinal, as luzes da platia decrescem em resistncia.
Acende-se um "spot" sobre a mesa, iluminando o Escritor apenas. Sobe msica
grandiosa, de final feliz de histria romntica de fadas. O Escritor est sentado  mesa,
folheando grandes livros, luxuosamente encadernados. Parece feliz e emocionado
com o que l, seguindo o envolvimento da msica. Nos ltimos acordes, ele se levanta,
com um livro aberto nas mos, enlevado.


        Escritor: "Branca de Neve casou-se com o Prncipe Encantado e os dois
viveram felizes para sempre..." Ah, que histria a da Branca de Neve! Acho que nunca
mais algum poder criar uma histria to cheia de idias emocionantes como esta:
anezinhos, espelho mgico, ma envenenada... (Pega outro livro.) E esta, ento?
Cinderela! Que coisa mais linda! (Vai pegando outros livros.) Chapeuzinho Vermelho!
A Bela Adormecida! A Bela e a Fera! Rapunzel! A Moura Torta! Que histrias
fantsticas! Eu jamais vou me esquecer delas! At hoje me emociono com as
aventuras dessas heronas... Passei minha infncia com estes livros e hoje, que eu
sou um escritor, adoraria poder criar uma histria to emocionante como qualquer
uma destas... (Abre mais um livro na ltima pgina.) "... e os dois viveram felizes para
sempre..." (Para a platia:) Vocs j notaram? Todas essas histrias maravilhosas
terminavam dizendo que a herona se casava com o Prncipe Encantado e pronto. Os
dois iam viver felizes para sempre e estava acabado. Mas, afinal de contas, o que
significa "viver feliz para sempre"? Significa casar, ter filhos, engordar e reunir a
famlia no domingo pra comer macarronada? Ora, quer dizer que a felicidade no 
viver mais nenhuma aventura? Nada mais de anezinhos, mas envenenadas e
sapatinhos de cristal? Ah, no pode ser! A vida de casado no pode ser to chata!
Como  que algum pode viver feliz sem aventuras? No  possvel que heris e
heronas to sensacionais tenham passado o resto da vida assistindo o tempo passar
feito novela de televiso!  preciso saber o que acontece depois do fim! Sabem? Eu
sempre tive essa curiosidade e acabei, mesmo sem querer, descobrindo o que
aconteceu no fim de todas essas histrias maravilhosas. E  isso que eu quero contar
para vocs. Naquela poca, eu era um escritor iniciante, com muitas idias na cabea
e poucas no papel. Vivia observando as pessoas e a mim mesmo, tentando tudo
entender e tudo transformar em histrias que tivessem verdade, que tivessem calor,
que tivessem graa. Histrias cheias de paixo, como as aventuras das heronas da
minha infncia. Quando aconteceram as histrias de fadas e princesas? Olhe, eu
acho que todas aconteceram ao mesmo tempo. Querem ver? (Pega um dos livros e
abre na primeira pgina.) "Era uma vez, h muitos e muitos anos..." Esto vendo?
Nem um muito a mais nem um muito a menos. Todas as histrias comeavam assim.
Isso quer dizer que todas comearam ao mesmo tempo, no  verdade? E, se todas
comearam ao mesmo tempo, todas terminaram tambm mais ou menos ao mesmo
tempo! Pois foi justamente h muitos e muitos anos mais vinte e cinco anos, que
comeou o fantstico mistrio de Feiurinha. Comigo no meio... (Vai at  mesa e
senta-se. Pega um lpis e comea a apont-lo com um apontador comum.) Estava eu
sozinho em casa, em minha sala de trabalho, extremamente ocupado apontando um
lpis, quando... Bem, naturalmente vocs sabem que os escritores, quando esto sem
inspirao, sentem inadivel necessidade de apontar lpis, limpar os tipos da mquina,
verificar se h papel suficiente na gaveta e ver se a empregada deixou alguma sobra
na geladeira, no ? Ento, como eu ia dizendo, estava eu extremamente ocupado
com minha literatura, quando me entrou pela casa um sujeito esquisitssimo.
        Entra Caio, o Lacaio. Est exageradamente vestido como um criado medieval,
todo em vermelho e amarelo. Malha justa sobre as pernas, uma das pernas de cada
cor. Gibo vermelho e amarelo e um chapu tipo Robin Hood, tambm vermelho e
amarelo, com duas longas penas. Age como um mordomo ingls, extremamente
calmo e cerimonioso.


        Escritor: Minha nossa! O embaixador da Espanha!
        Caio: Perdo, senhor Escritor, se assim invado vosso insigne castelo, mas
embaixador da Espanha no sou, embora embaixador eu seja.
        Escritor: No  da Espanha? De onde ser ento?
        Caio: Venho de um pas que est em todos os lugares. Em todos os lugares,
onde houver uma cabea de criana sonhando, nobre senhor Escritor. Um pas que
fala uma s lngua, senhor. Uma lngua que qualquer criana, de qualquer pas do
mundo, entende perfeitamente, senhor Escritor. Venho do Pas das Fadas!
        Escritor: (Para a platia:) Naquela ocasio, eu tentei fazer a cara mais
inteligente de que era capaz. Afinal, aquela era a primeira vez que eu me via frente a
frente com um louco fugido do hospcio e no podia dar a impresso de que
desconfiava da veracidade daquela histria maluca... (Para Caio:) Com que, ento,
voc vem do Pas das Fadas, no ? Muito bem... Mas como  mesmo o seu nome?
        Caio: Caio, senhor. Meu nome  Caio, o Lacaio. Tenho a honra de servir
como lacaio no castelo da Senhora Princesa Dona Branca Encantado.
        Escritor: Dona Branca Encantado? Creio que nunca ouvi falar dessa
Princesa...
        Caio: Talvez o senhor j tenha ouvido falar da senhora minha patroa com o
nome de solteira, senhor. Antes de casar-se, o sobrenome da minha patroa era "de
Neve". Mas, depois que se casou com o Prncipe Encantado, passou a usar o
sobrenome do marido...
        Escritor: Dona Branca Encantado? Branca de Neve? Quer dizer que...
        Caio: Todo mundo s conhece a senhora Princesa minha patroa pelo
sobrenome de solteira, senhor Escritor. Mas ela casou-se muito bem, se me permite o
comentrio, senhor.
        O Prncipe Encantado, a quem eu sirvo,  um dos mais nobres descendentes
da famlia Encantado...
          Escritor: Famlia Encantado?
          Caio: Uma famlia muito nobre, senhor. E muito conhecida tambm.  ela que
fornece prncipes para casar com heronas lindas e pobres no fim de todas as histrias.
So todos excelentes Prncipes, e as senhoras Princesas do Pas das Fadas esto
muito satisfeitas.  claro que sempre h alguma confuso, pelo fato de todas agora
terem o mesmo sobrenome...
          Escritor: (Para a platia:) Aquele biruta parecia imaginoso! Na ocasio,
pensei que, depois que ele estivesse novamente trancafiado na cela forte de onde
devia ter fugido, eu haveria de dar um jeito de fazer-lhe uma visitinha. Talvez at
pudesse transformar alguma de suas idias fantsticas em um livro daqueles em que
ningum acredita mas de que todos gostam. Eu tinha, ento, de agir com muito
cuidado... (Para Caio:) Branca de Neve! Voc ento  o lacaio de Branca de Neve! E
como anda a sua senhora, Caio?
          Caio: Com as pernas, senhor. A senhora Princesa Dona Branca Encantado
continua linda, com a pele ainda branca como a neve e com os cabelos ainda negros
como o bano, embora entre eles j haja muitos fios brancos como a neve, senhor
Escritor...
          Escritor: (Para a platia:) O maluco colorido era mesmo incrvel! Nunca tinha
visto algum com uma imaginao to frtil. Se no o tivessem trancado num hospcio,
na certa teria dado um timo publicitrio! (Para Caio:) Muito bem, Caio. Estou muito
satisfeito de receber notcias de Branca de Neve, depois de tantos anos e anos. Mas,
voc estava dizendo que era e no era embaixador. Embaixador do Pas das Fadas,
talvez?
          Caio: Embaixador da minha Princesa, senhora Dona Branca Encantado,
senhor Escritor. Venho rogar um grande favor a vossa senhoria. Creio que s o senhor
poder afastar a tremenda ameaa que paira sobre o Pas das Fadas...
          Escritor: Eu? Salvar o Pas das Fadas? Como assim, Caio?
          Caio: Oua, senhor Escritor...


          Apagam-se as luzes sobre o ambiente do Escritor e acendem-se no salo do
castelo de Dona Branca Encantado. O escritor fica assistindo  prxima cena. Caio
sai.
        No salo do castelo, Dona Branca Encantado est sentada em sua cadeira
de espaldar alto, tricotando um sapatinho de l. Est visivelmente grvida. Entra Caio,
o Lacaio. Curva-se respeitosa e espalhafatosamente e anuncia:


        Caio: Alteza, a Senhorita Vermelho acaba de chegar ao castelo e pede...
        Branca: Chapeuzinho Vermelho? Que timo! Pea para ela entrar. Vamos,
Caio, rpido!


        Caio inclina-se, afasta-se um pouco e estende o brao, ainda inclinado, em
direo  porta. Entra Dona Chapeuzinho Vermelho. O papel deve ser feito por uma
atriz bem pequena, talvez algo gorducha, de boa veia cmica. Est vestida como
Chapeuzinho Vermelho e traz pendurada no brao a famosa cestinha com os doces
para a Vov. Dona Branca corre para abraar a amiga.


        Branca: Chapeuzinho Vermelho! Querida! H quanto tempo! Como vai a
Vovozinha?
        Chapu: Branca!


        As duas do-se trs beijinhos nas faces.


        Chapu: Um... dois... e trs! Pra ver se eu caso, Branca! Ai, ai! Sou uma das
poucas neste Pas das Fadas que no  princesa! Tambm... voc sabe, no ?
        Branca: Sei, Chapu! A sua histria terminou dizendo que voc ia ser feliz
para sempre ao lado da Vovozinha, e o autor esqueceu de fazer aparecer um Prncipe
Encantado no final pra casar com voc. Por isso, voc ficou encalhada...
        Chapu: Tambm no precisa falar assim... Eu estou solteira mas... Quem
sabe, no ?
        Branca: Ora, voc tem a Vov para lhe fazer companhia...
        Chapu: E quem quer uma av caduca daquelas? Eu quero  um Prncipe!


        Dona Branca olha fixamente para Chapeuzinho, tentando confort-la.
        Branca: Coragem, Chapeuzinho!
        Chapu: Branca, por que voc tem esses olhos to grandes?
        Branca: Ora, deixe de besteira, Chapu!
        Chapu: Ahn... quer dizer... desculpe, Branca.  que eu sempre me distraio...
sabe? Estou sempre pensando na minha histria. No fosse a falta do Prncipe... A
minha histria  to linda, com o Lobo Mau, to terrvel, e o Caador, to valente...
        Branca: At que a sua histria  passvel, Chapu. Mas linda mesmo  a
minha, que tem espelho mgico, ma envenenada, bruxa malvada, anezinhos e at
caador generoso!
        Chapu: Questo de gosto, querida...


        Dona Chapeuzinho senta-se confortavelmente, coloca a cestinha ao lado, tira
um sanduche de mortadela e pe-se a comer.


        Chapu: Aceita um brioche?
        Branca: No, obrigada.
        Chapu: Quer uma ma?
        Branca: No! Eu detesto ma!
        Chapu: Pena... Pode fazer bem para voc que est assim... esperando...
        Branca: Voc notou, Chapu?
        Chapu: ... ia ser difcil no notar...
        Branca: Pois , menina! Estou esperando o meu stimo!
        Chapu: Stimo?
        Branca: Pois .  que faltava um para ser afilhado do ltimo anozinho... Mas
a ocasio at que  tima, Chapu. O nen vai chegar logo depois das minhas Bodas
de Prata!
        Chapu: Bodas de Prata?
        Branca: Voc no sabia? Daqui a uma semana eu e o Prncipe Encantado
fazemos vinte e cinco anos de casados. Vinte e cinco anos de felicidade para sempre!
        Chapu: Sei, sei... Mas hoje eu no vim aqui para falar de boda nenhuma.
(Olha para a amiga com aquele olhar conspirador que as comadres usam quando
esto conversando por cima do muro do quintal.) Menina, voc no imagina o que
aconteceu...
         Branca: Aconteceu? O que foi que aconteceu? Ah, vamos, conte logo! Sou
doida por uma fofoca. Vai ver foi aquela sirigaita da Gata que...
         Chapu: Branca, Branca! Voc sabe que Cinderela Encantado detesta ser
chamada de Gata Borralheira...
         Branca: Ah, deixe pra l. Continue!
         Chapu: (Olhando em volta, como para ver se h algum  escuta:) O
Prncipe est no castelo?
         Branca: O Prncipe? Que Prncipe?
         Chapu: O Prncipe Encantado. Seu marido.
         Branca: Ah! No est no. Foi  caa.
         Chapu: E as crianas?
         Branca: Os meninos esto na aula de esgrima e as meninas esto na aula de
minueto. Mas conte logo, vai!
         Chapu: Ento vamos ao assunto. Eu falei com a Rapunzel Encantado e ela
me disse que o Prncipe...
         Branca: Prncipe? Que Prncipe?
         Chapu: O Prncipe Encantado. Marido da Rapunzel.
         Branca: Ah...
         Chapu: Pois . O marido da Rapunzel encontrou-se com o Prncipe...
         Branca: Prncipe? Que Prncipe?
         Chapu: O Prncipe Encantado. Marido da Cinderela.
         Branca: Ah...
         Chapu: Resumindo: o Prncipe da Rapunzel encontrou-se com o Prncipe da
Cinderela que tinha passado pelo castelo da Feiurinha...
         Branca: A Feiurinha! H quanto tempo eu no vejo a minha querida cunhada
Feiurinha Encantado...
         Chapu: Pois  exatamente essa a fofoca: h muito tempo ningum v a
Feiurinha!
         Branca: Ela desapareceu?
         Chapu: Completamente! O Prncipe deve estar desconsolado...
          Branca: Prncipe? Que Prncipe?
          Chapu: O Prncipe Encantado. Marido da Feiurinha.
          Branca: Ah... Ser que a Feiurinha abandonou o marido?
          Chapu: E fugiu com outro? Acho difcil. A essa altura no existe mais
nenhum Prncipe Encantado solteiro. Eu que o diga! Estou cansada de ser solteirona e
agentar aquela Vov caduca! Tenho procurado feito louca, mas s encontro Prncipe
casado...
          Branca: Espere a! Se a Feiurinha desapareceu, isso significa que ela pode
estar correndo perigo. E, se isso for verdade, ser a primeira vez que uma de ns
corre perigo desde que casamos para sermos felizes para sempre!
          Chapu: Vocs casaram? Eu no...
          Branca: Espere a, Chapu. No temos tempo para suas lamentaes agora.
Voc no percebe o que pode estar acontecendo?
          Chapu: Claro que percebo! A Feiurinha desapareceu!
          Branca: Sei. Mas isso pode significar que est quebrado o encanto que nos
garantia felicidade eterna neste Pas das Fadas! De acordo com o encantamento,
nada pode acontecer de errado com nenhuma de ns!
          Chapu: Quer dizer que... se a Feiurinha desapareceu...
          Branca: Qualquer uma de ns, a qualquer momento, poder tambm
desaparecer! Ou coisa pior!
          Chapu: Que horror! Eu no posso desaparecer at encontrar o meu Prncipe,
menina!
          Branca: Ai, ai, ai! L vem voc!
          Chapu: Mas... talvez a Feiurinha no tenha desaparecido. Talvez ela...
          Branca: Precisamos descobrir o que houve! Enquanto no soubermos,
estamos sem garantia nenhuma, Chapu!
          Chapu: Mas o que ns podemos fazer?
          Branca: Vou convocar uma reunio de todas ns!
          Chapu: Boa idia! Chame os Prncipes tambm!
          Branca: Os Prncipes no adianta chamar. Esto todos gordos e passam a
vida caando. Alm disso, Prncipe de histria de fada no serve pra nada. A gente
tem de se virar sozinha a histria inteira, passar por mil perigos, enquanto eles s
aparecem no final para o casamento!
        Chapu: ... os nicos decididos so os caadores. Eu devia ter casado com
o Caador que matou o Lobo...


        Dona Branca puxa o cordo da campainha de chamar Lacaio. No mesmo
instante, Caio, o Lacaio, aparece.


        Caio: s ordens, Princesa.
        Branca: Caio, monte o nosso melhor cavalo. Corra, voe e chame todas as
minhas cunhadas de todos os reinos encantados para uma reunio aqui no castelo.
Depressa!
        Caio: Pois no, minha Princesa.


        Caio sai.


        Chapu: E esse Caio, Branca?  casado?


        Caio aparece.


        Caio: Pronto, minha Princesa. As Princesas vossas cunhadas j comearam
a chegar.
        Chapu: Hein? J voltou?
        Branca: Gozado voc ainda se surpreender, Chapu! Voc se esquece de
que, em histrias de fada, esse negcio de tempo no tem a mnima importncia?
Meu lacaio Caio j foi e j voltou, como deve acontecer em histrias como as nossas...
        Chapu: Ah, ... Esqueci...
        Caio: (Anunciando, como arauto da Idade Mdia:)
        A senhora Princesa Cinderela Encantado!


        Entra Dona Cinderela Encantado, linda senhora tambm grvida, calando
sapatinhos de cristal. Ela anda com certa dificuldade, como se pisasse em ovos.
         Cinderela: Ai, ai, ui, ui...
         Branca: Bem-vinda ao meu castelo, querida Cinderela!
         Cinderela: Oi... (Procura uma cadeira e senta-se. Tira os sapatos e comea a
mexer os dedinhos dos ps para reativar-lhes a circulao.) Uf! Estes sapatinhos de
cristal esto me matando! J estou cheia de calos...
         Branca: Que bom que voc veio! Puxa, voc tambm est esperando nen?
         Cinderela: Estou. Para o ms que vem...
         Branca: Que coincidncia! O meu tambm  para o ms que vem...
         Cinderela: Pois . Na prxima semana eu e o Prncipe Encantado vamos
fazer Bodas de Prata. O nen vai nascer logo depois.
         Branca: Outra coincidncia! Eu tambm vou fazer Bodas de Prata na semana
que vem!
         Chapu: Ai, ai! S eu que no vou fazer boda nenhuma...
         Cinderela: , Branca... Infelizmente em nossas histrias tem uma ou outra
coincidncia...
         Branca: Espere a! No me venha comparar as bobagens da sua histria com
as emoes da minha! Na minha histria...
         Cinderela: Tem muito mau gosto! Onde j se viu ficar morta anos e anos ao
relento? A vem o Prncipe Encantado e d um beijo numa defunta que est morta e
esticada h anos e anos! E depois, se muitos e muitos anos se passaram, o teu
Prncipe j devia estar velho como uma mmia! At que combinaria, no ? Uma
mmia beijando a outra... Que mau gosto!
         Chapu: Calma, meninas...
         Branca: Mau gosto? Ora, voc no sabe que, nos contos de fadas, anos e
anos passam num minuto? Que  s virar a pgina?
         Cinderela: Mesmo assim! Beijar um defunto na boca  de muito mau gosto.
Parece at histria de vampiro...
         Branca: Ah, , queridinha? E a sua histria ento? Quer mau gosto pior que o
Prncipe ficar experimentando o sapatinho de cristal no chul de todas as mulheres do
reino? Se ele estava to apaixonado, no era capaz de reconhec-la olhando pra sua
cara?
         Cinderela:  que o Prncipe  meio mope, coitadinho...
         Branca: Quem? O Prncipe Encantado, meu marido?
         Cinderela: No, sua idiota! O Prncipe Encantado, meu marido!
         Branca: Tinha de ser mope mesmo, pra casar com uma sirigaita como voc!
         Chapu: Branca! Cinderela! No briguem, meninas!
         Cinderela: Voc... voc no  branca como a neve coisa nenhuma! Voc 
branca como um defunto fedorento!
         Branca: O qu? Sua... sua Gata Borralheira!
         Cinderela: O qu!? Repita isso!
         Branca: Repito sim: Gata Borralheira!
         Cinderela: Defunta!
         Branca: Borralheirssima!
         Cinderela: Vampira!
         Branca: Borralheirona toda borrada!
         Cinderela: Cadavrica!
         Chapu: Calma, meninas!


         Aparece Caio, interrompendo a discusso. As duas recompem-se, mas
Chapeuzinho pe-se entre as duas, temendo nova exploso de fria.


         Caio: A senhora Princesa Rapunzel Encantado!


         Dona Rapunzel Encantado entra carregando cinco metros de tranas.
Tambm est to grvida quanto as outras duas. Entra se lamentando e apertando
uma bolsa de gelo na cabea.


         Rapunzel: No agento mais de dor de cabea! Ai, que dor de cabea! O
Prncipe...
         Branca: Prncipe? Que Prncipe?
         Rapunzel: O Prncipe Encantado, meu marido.
         Branca: Ah...
         Rapunzel: Pois  por causa dele eu estou com essa dor de cabea. Toda
noite ele esquece a chave do castelo e cisma de entrar em casa subindo pelas minhas
tranas. No agento mais de dor de cabea! O Prncipe j no  to magrinho como
antigamente...
         Chapu: (Suspira, olhando para suas pequenas tranas.) Quem me dera que
eu tivesse um Prncipe pra subir pelas minhas tranas! Quem sabe, o Pequeno
Polegar...
         Rapunzel: (Senta-se e coloca a bolsa de gelo sobre a cabea como se fosse
um chapu.) Mas o pior  o cime dele! Vive brigando comigo e dizendo que eu ando
jogando as tranas pra todo mundo...
         Branca: Coitadinha...
         Cinderela: Coitadinha...
         Chapu: Coitadinha...
         Rapunzel: E logo agora que eu e ele vamos fazer Bodas de Prata...
         Branca: Que coincidncia!
         Cinderela: Que coincidncia!
         Chapu: Humpf...
         Rapunzel: ... e estou esperando nen para o ms que vem!
         Branca: Que coincidncia!
         Cinderela: Que coincidncia!
         Chapu: Ai, ai! S eu no fao boda nenhuma e no espero nen nenhum...
         Rapunzel: Ui! V se no pisa na minha trana!
         Chapu: Desculpe!
         Rapunzel: Mas, Branca, afinal de contas, por que voc mandou me chamar
com tanta pressa?
         Branca: Ah, Rapunzel! Voc nem calcula! Imagine que...


         Caio aparece.


         Caio: A senhora Princesa Bela Adormecida Encantado!


         Entra Dona Bela Adormecida. Tambm grvida e sonolenta.


         Chapu: Mais uma grvida! E aposto que tambm est para fazer Bodas de
Prata...
           Adormecida: Estou mesmo! Como adivinhou?
           Chapu: Intuio, queridinha, intuio...
           Branca: Entre, querida! Que bom que voc veio logo!


           Dona Bela Adormecida boceja de sono e ajeita-se no canap. Durante toda a
cena, ela poder provocar efeitos cmicos, roncando s vezes, chupando o dedo etc.


           Adormecida: Branca, que histria  essa de me chamar com tanta urgncia?
Eu estava tirando uma sonequinha. Afinal de contas, eu preciso descansar um pouco,
no ? Voc no sabe o trabalho que eu estou tendo. Eu e o Prncipe Encantado
vamos fazer Bodas de Prata e, alm de tudo, eu estou esperando nen!
           Cinderela: Todas estamos, queridinha, todas estamos...
           Chapu: Ai, ai, menos eu...
           Adormecida: Afinal, Branca, de que se trata?


           Antes que Dona Branca possa responder, entra Caio.


           Caio: A senhora Princesa Bela-Fera Encantado!


           Entra Dona Bela-Fera, da mesma idade e esperando nen tanto quanto as
outras. Tambm entra bocejando.


           Branca: timo que Bela-Fera j chegou. Caio! Aproveite e percorra todos os
cantos de todos os reinos encantados. Pergunte em todas as tabernas. Pergunte em
todos os cantos pela Feiurinha. Veja o que sabem l no palcio dela. Pergunte ao
Prncipe Encantado, o marido da Feiurinha. Traga todas as notcias que conseguir!
           Caio: Sua ordem  um pedido para mim, Princesa. J vou indo! Volto em dois
dias de conto de fadas. Isto , em cinco minutos...
           Bela-Fera: U... que sono!
           Branca: Ah, querida Bela-Fera! Meu lacaio tirou voc da cama! S que
bocejos no combinam bem com a sua histria. Combinam melhor com a nossa
amiga ali, a Bela Adormecida...
           Bela-Fera:  que eu no consegui dormir a noite toda. Ontem foi noite de lua
cheia...
           Branca: E o que  que tem isso?
           Bela-Fera:  que, nessas ocasies, meu marido passa a noite toda uivando
pra lua... Vocs sabem, no ? Ele tem saudades do seu tempo de Fera...
           Cinderela: Desse jeito, o seu Prncipe vai acabar virando lobisomem...
           Bela-Fera: Ele era lobisomem, sua fofoqueira! Fui eu quem o fez voltar a ser
Prncipe!
           Cinderela: Aquilo? Prncipe? No me faa rir!
           Bela-Fera: Quem  voc para falar da minha histria? Logo voc, que casou
com um Prncipe que preferia seu p a sua cara!
           Cinderela: Ah, ? Mas no fim eu casei com um Prncipe de verdade, e no
com um lobisomem...
           Bela-Fera: Bruxa! Horrorosa!
           Cinderela: Mulher de lobisomem!
           Branca: Calem a boca, suas fofoqueiras! Estamos com um problema grave
nas mos! A Feiurinha desapareceu!
           Cinderela: Como?!
           Bela-Fera: Como?!
           Rapunzel: Como?!


           Bela Adormecida ronca, pois j pegou no sono.


           Cinderela: A Feiurinha desapareceu? Mas isso  impossvel!
           Bela-Fera: O que  que houve?
           Branca: No sei. S sei que ela desapareceu bem desaparecida e pronto!
           Cinderela: Que tristeza!
           Branca: Tristeza?  muito mais do que isso!  um problema enorme para
todas ns que terminamos nossas histrias com a promessa de vivermos felizes para
sempre. Se algum mal aconteceu com a Feiurinha, isso significa que a felicidade
eterna de qualquer uma de ns pode ser destruda de uma hora para a outra!
           Silncio. Todas se entreolham, apreensivas. Todas, menos Dona Bela
Adormecida Encantado, que ronca a sono solto no canap. Cinderela d-lhe um
discreto pontap.


           Cinderela: Pare de roncar, desgraada!
           Rapunzel:  isso mesmo! Veja se vira bela acordada, porque adormecida
voc  um horror!
           Adormecida: (Acordando, toda atrapalhada:) Ahn? Hum? O que foi?
           Branca: Precisamos agir! J que estamos todas aqui reunidas...
           Adormecida: Todas? Faltam um monte de Princesas. Falta a Feiurinha...
           Branca:  claro que falta, sua dorminhoca! Era exatamente sobre a Feiurinha
que eu estava falando o tempo todo!
           Chapu: Acho melhor deixar a Bela Adormecida dormir. Assim ela atrapalha
menos...
           Branca: E esse Lacaio que no chega! Nenhuma de ns vai conseguir dormir
direito enquanto...
           Rapunzel: A Bela Adormecida consegue...
           Cinderela: S ela mesmo...
           Bela-Fera: Ei, tive uma idia! Branca, por que voc no pergunta ao Espelho
Mgico o que aconteceu com a Feiurinha?
           Branca: Nem adianta tentar! Essa porcaria de Espelho s sabe fazer fofoca
sobre quem  mais bela que a outra!
           Chapu: Que pena...
           Branca: E esse Lacaio que no chega!


           Entra Caio.


           Caio: Com licena, minha Princesa. Misso cumprida!
           Branca: Caio! Voc voltou! E ento? O que descobriu?
           Caio: Nada, Princesa...
           Branca: Como nada? O que disseram l no palcio da Feiurinha?
        Caio: Nada, Princesa. O palcio da senhora Princesa Feiurinha Encantado
desapareceu, minha Princesa...
        Branca: At o castelo? Mas o que disse o Prncipe Encantado, o marido da
Feiurinha?
        Caio: O Prncipe Encantado no disse nada, minha Princesa.
        Branca: Como no disse nada?
        Caio: O Prncipe Encantado, marido da senhora Princesa Feiurinha
Encantado, tambm desapareceu...
        Branca: At ele? Mas ningum disse nada? Ningum deu uma pista que...
        Caio: Perdoe-me, Princesa, fiz o que pude. Mas o problema  que todos
dizem at que nunca ouviram falar em uma Princesa chamada Feiurinha...


        Todas ficam caladas. A desolao toma conta delas. Aps um breve intervalo,
Dona Branca encara as amigas.


        Branca: Vocs compreendem o perigo que todas ns estamos correndo?
Uma herona, algum como ns, desapareceu sem deixar vestgios. At o castelo e o
marido dela desapareceram.
        Rapunzel: Vai ver os dois saram de frias...
        Chapu: E levaram o castelo com eles? Ora, deixe de ser boba...
        Cinderela: J procuraram por algum sapatinho de cristal perdido em alguma
escadaria? Se encontrarem um,  s experimentar nos ps de todas as...
        Bela-Fera: Cale a boca, Cinderela! O negcio  srio!
        Branca: Como eu ia dizendo, desse jeito algum desastre pode acontecer com
qualquer uma de ns a qualquer momento!
        Chapu: Ser que nossos tempos de felicidade eterna terminaram?
        Rapunzel: No  possvel! Acho que os lacaios procuraram errado! So todos
uns incompetentes.  preciso procurar direito, falar com as pessoas certas. E preciso
interrogar todos os personagens secundrios da histria da Feiurinha!
        Cinderela: Boa idia! Vamos repassar toda a histria da Feurinha, sem
esquecer nenhum detalhe. Depois vai ser fcil localizar os personagens secundrios.
Voc comea, Rapunzel!
            Rapunzel: Bem... no me lembro direito da histria dela... sabe?  uma
histria meio boba, no tem o charme da minha...
            Bela-Fera: Ora, deixe de ser presunosa! A sua histria no passa de um
monte de baboseiras. Charme tem a minha histria, onde...
            Branca: Calem a boca! As duas! Vamos deixar a vaidade de lado. O perigo
que ns corremos  muito mais srio. No h tempo a perder!
            Chapu: Tem razo, Branca. Comece voc ento a contar a histria da
Feiurinha.
            Branca: Eu... eu no me lembro direito... Talvez, se voc comear...
            Chapu: Sabe? Eu tambm no me lembro da histria da Feiurinha...


            Dona Branca olha para cada uma das outras Princesas. Todas balanam a
cabea e baixam os olhos, envergonhadas por no se lembrarem da histria da
Feiurinha.


            Cinderela: O que vamos fazer agora? Como vamos investigar o
desaparecimento sem conhecer a histria da desaparecida? Com quem vamos falar?
A quem vamos perguntar qualquer coisa?
            Chapu: ... o lacaio disse que ningum viu a Feiurinha e, o que  pior,
ningum sequer sabe quem  essa tal Feiurinha...
            Rapunzel: S tem um jeito!
            Bela-Fera: Que jeito? No tem jeito...
            Rapunzel: Tem sim! Pense s: como  que as pessoas ficam conhecendo as
nossas histrias?
            Cinderela: Nos livros de histrias,  claro.
            Chapu: Entendi! Vamos procurar o livro onde est narrada a histria da
Feiurinha!
            Bela-Fera: Grande idia! Agora a coisa fica fcil! Quem escreveu a histria da
Feiurinha?
            Chapu: Da Feiurinha, eu no sei. Mas a minha eu sei que foi Charles
Perrault. Um francs mara-vi-lho-so que s esqueceu de botar um Prncipe Encantado
no final.
         Branca: Acho que no foi ele. Vai ver foram Wilhelm e Lacob, os irmos
Grimm, aqueles dois alemezinhos adorveis que contaram as minhas aventuras pela
primeira vez...
         Bela-Fera: Os Grimm? No, no foram eles. No ter sido Andersen?
         Cinderela: Hans Christian Andersen? O sapateiro? No, vai ver foi Esopo.
         Rapunzel: Muito antigo! Na certa foi La Fontaine.
         Chapu: Talvez tenha sido Lobato...
         Bela-Fera: O do Stio do Pica-pau Amarelo? J estive l. No foi ele no. No
ter sido Carroll?
         Cinderela: O da Alice? Sei no...
         Branca: Um momento, meninas. Descobrir onde foi parar a Feiurinha no 
tarefa para ns. (Dona Branca puxa o cordo de chamar lacaio.) Isso  um trabalho
para quem nos inventa.  trabalho para um escritor!


         No momento em que Dona Branca puxa o cordo, apagam-se as luzes da
cena e acendem-se as luzes do ambiente do Escritor. As Princesas saem de cena no
escuro. Na sala do Escritor, est Caio, sentado na poltrona em frente  mesa de
trabalho, muito  vontade, como se tivesse acabado de narrar tudo o que acabou de
ser mostrado.


         Caio: E foi assim que sa pelo mundo  procura de um escritor, senhor
Escritor. Procurei por todos os grandes escritores de contos de fadas. Vasculhei em
busca de Perrault, de Lobato, de Andersen, de Grimm, de Esopo, de La Fontaine, de
Lewis
         Carroll. S que foi impossvel encontrar qualquer um deles. Por isso acabei
aqui, em vosso castelo, rogando vosso auxlio para impedir que todos ns, os
personagens dos contos de fada, acabemos desaparecendo, como desapareceu a
senhora Princesa Dona Feiurinha Encantado...
         Escritor: Encantado estou eu, Caio, pela honra de ter sido escolhido para
uma misso to fascinante. Quer dizer que voc resolveu me procurar como o melhor
escritor de contos de fadas?
         Caio: No, senhor Escritor. Como o nico que encontrei...
        O Escritor volta-se rapidamente para a platia, como se procurasse distra-la
da pequena ofensa proferida por Caio. Caio, inabilmente, fica examinando livros.


        Escritor: E l estava eu com um grande problema nas mos. Para um escritor,
criar uma personagem faz parte do ofcio, mas descobrir uma herona desaparecida
dos reinos encantados era um desafio que eu no sabia como enfrentar. Caio, o
Lacaio, no saa de perto de mim, aguardando a soluo do mistrio, que era
ansiosamente esperada pelas Princesas, l nos distantes reinos encantados. Tentava
me ajudar, como um bom lacaio, mas sua experincia como qualquer coisa alm de
lacaio era nula, e ele s atrapalhava. Acabei por mand-lo ajudar a velha Jerusa nas
tarefas domsticas.


        Durante o restante da fala do Escritor, Jerusa cruza vrias vezes a cena,
sempre acompanhada de Caio, o Lacaio, que a auxilia, varrendo, carregando cestos
de roupa, passando roupa, enxugando loua, tirando o p dos mveis.


        Escritor: Jerusa era gorda e resmungona, mas era tima pessoa e acabou
aceitando a ajuda daquele sujeito esquisitssimo, que parecia vestido para um baile de
carnaval. Assim, desvendar o fantstico mistrio de Feiurinha estava sob minha nica
e inteira responsabilidade. S que havia um problema: eu no me lembrava da histria
de Feiurinha. No me lembrava nem de ter ouvido falar nessa Princesa antes de
receber a visita vermelha e amarela de Caio, o Lacaio. E olhe que eu pensava j ter
lido todos os contos de fadas, fora os que me contava minha falecida av.
        E eu os lia e relia mesmo adulto, sem vergonha de confess-lo. Mas no me
lembrava jamais de ter lido ou ouvido falar da histria da Feiurinha. Procurei em todas
as bibliotecas e colees particulares, mas no encontrei nem sombra de uma
personagem chamada Feiurinha. Falei com todos os escritores conhecidos que pude,
escrevi para os desconhecidos, para os folcloristas, para bibliotecrios e historiadores
do mundo inteiro, mas a soluo do fantstico mistrio de Feiurinha no caminhava
nem um pouco.
        Mas, l nos reinos encantados, as Princesas comearam a perder a
pacincia. Foi assim que, um dia, tocou a campainha...


        Toca a campainha. Caio vai atender. Perfila-se solenemente e anuncia.


        Caio: A senhora Princesa Dona Branca Encantado!


        Entra Dona Branca Encantado. Dona Branca e Caio ficam paralisados
enquanto o Escritor ainda fala para a platia.


        Escritor: Branca de Neve! Ali, na minha frente!  claro que um pouco mais
velha e ligeiramente mais grvida, mas ainda a grande, a incomparvel Branca de
Neve! Meu queixo caiu. At ali, eu aceitara a tarefa proposta pelo lacaio, no por
acreditar nele, mas pela emoo inusitada de perseguir a alucinao de um louco.
Mas a coisa agora tinha mudado de figura, pois at eu, com toda a minha segurana e
maturidade, tinha de reconhecer que aquela s poderia ser, sem sombra de dvida, a
verdadeira Branca de Neve, s que um pouquinho mais velha e mais grvida.
        Branca: (Para Caio:)  esse o Escritor?
        Caio: Sim, senhora Princesa.  esse o Escritor.
        Branca: Voc no poderia ter arranjado coisa melhor?
        Caio: Tentei, senhora, mas s havia esse disponvel...
        Branca: Ento temos de nos virar com ele mesmo. (Para o Escritor:) Ento,
senhor Escritor. J encontrou a Feiurinha? (O Escritor continua pasmo e no
responde.) Pare de ficar com a boca aberta feito um palerma e responda  minha
pergunta. Encontrou ou no encontrou a Feiurinha?
        Escritor: Eu... bem... Estou investigando. E j h progressos considerveis...
        Branca: Muito bem. O que j conseguiu?
        Escritor: Bom, quer dizer... at o momento...
        Branca: Seja claro!
        Escritor: At o momento, pouca coisa, na verdade...
        Branca: Pouca coisa? O que descobriu, afinal?
        Escritor: De concreto nada, mas...
        Branca: (Com contida impacincia na voz:) Senhor Escritor, acho que meu
lacaio no foi bem claro. A Feiurinha  uma de ns. Mas desapareceu, mesmo tendo
terminado a histria dela com a promessa de ser feliz para sempre. O senhor sabe o
que isso significa? Significa que no h mais garantias de felicidade nem de
eternidade para qualquer herona. Significa que, de uma hora para outra, qualquer
uma de ns poder desaparecer! E o senhor diz que no encontrou nada ainda?
           Escritor: Bem, senhora,  que...


           Ouve-se a campainha. Caio vai at a porta. Entram Senhorita Chapeuzinho,
Dona Cinderela, Dona Bela-Fera, Dona Bela Adormecida e Dona Rapunzel. Caio as
anuncia.


           Caio: As senhoras Princesas Dona Cinderela Encantado, Dona Bela-Fera
Encantado, Dona Bela Adormecida Encantado, Dona Rapunzel Encantado e a
Senhorita Chapeuzinho Vermelho!


           Todas as Princesas permanecem imveis. O Escritor fala para a platia.


           Escritor: Todas elas! Todas as heronas da minha infncia, em carne e sonho!
Todas ansiosas pela soluo que eu ainda no tinha encontrado. Eu as reconheci
imediatamente, mas a minha alegria por conhec-las foi superada pelo meu remorso
de no ter ainda podido livr-las da aflio que as perseguia.


           Entra Jerusa.


           Jerusa: Nossa! Quem so essas senhoras to lindas, patro? Mas o carnaval
ainda est longe!
           Escritor: Oh, Jerusa... Estas so... so minhas primas do interior, que vieram
fazer uma visitinha...
           Jerusa: (Parece no acreditar:) Primas? Ch... Pois esto me parecendo
mais a Branca de Neve, a Bela Adormecida, a Rapunzel, a Cinderela, a Bela da Fera e
a Chapeuzinho Vermelho...
           Escritor: Como? Como adivinhou, Jerusa? E voc no parece nem um
pouquinho surpresa...
         Jerusa: Ora, patro! Eu j sou velha. J vivi muito e j tive de engolir sustos
bem maiores! Essas da esto um bocado mais madurinhas, mas no me enganam,
no...


         O Escritor fala para a platia. As Princesas cercam sua mesa. Dona Bela
Adormecida instala-se na poltrona e adormece. Jerusa sai.


         Escritor: Sa  rua em busca de uma pista de Feiurinha, procurando vovs
contadeiras de histrias, pesquisando arquivos os mais estranhos. Mas acabei
voltando para casa, derrotado, sem ter como responder  ansiedade de cinco
princesas, uma senhorita gorducha de chapeuzinho vermelho e um lacaio
multicolorido. Eu olhei para aquelas estranhas visitas, to ou mais preocupado do que
elas, temendo o momento em que, em minha prpria casa, uma daquelas heronas
desapareceria, quebraria uma perna, prenderia o dedo numa porta ou se afogaria na
banheira. Quando a campainha da porta tocou novamente, a esperana renovou-se
em todos ns. (Ouve-se a campainha. O Escritor se antecipa a Caio e abre a porta.
Recebe alguns telegramas.) Aqui est! Era o carteiro. Vejam estes telegramas. Devem
ser as respostas s minhas consultas aos especialistas estrangeiros! (Rasga os
telegramas, um a um.) Este vem da Inglaterra! Vamos ver o que diz... "uglilily? never
heard about..."


         Cinderela: Feiurinha? Nunca ouvi falar...


         O Escritor abre outro telegrama.


         Escritor: Da Espanha! "La feta? Jams o hablar...
         Chapu: Feiurinha? Nunca ouvi falar...
         Escritor: Este vem da Frana: "Petite vilaine? Je n'ai jamais entendu parler de
a..."
         Bela-Fera: Feiurinha? Nunca ouvi falar...
         Escritor: Olhem este aqui. Da Itlia! "Brutezzina? Non ne ho mai sentito
parlare..."
         Rapunzel: Feiurinha? Nunca ouvi falar...
         Escritor: Mas este vem do Piau: "Feiurinha..."
         Todas: ... nunca ouvi falar!
         Escritor: (Desesperado, rasga o ltimo telegrama.) Ah, mas ainda tem um!
Aqui est! Afinal uma resposta que vale a pena!
         Bela-Fera: O que diz a?
         Escritor: Bem...  difcil entender o estilo... Acho que  alemo...
         Branca: Alemo? Minha histria  alem. Alemo eu conheo. D isso aqui!
(Arranca o telegrama das mos do Escritor.)
         "Miesslienchen? Hab nie davon gehoert..."
         Escritor: Eu no disse? A est!
         Chapu: Est o qu? Vamos, Branca, fale logo. O que diz o telegrama?
         Branca: Aqui diz: "Feiurinha? Nunca ouvi falar...
         Escritor: Mas eu... tinha tanta esperana! Esta deve ser a resposta de um
eminente especialista de Berlim...


         Dona Branca olha fixamente para o Escritor. Em seguida, esconde o rosto
nas mos, chorando sobre o telegrama. O Escritor corre para ela e toma-lhe as mos
nas suas.


         Escritor: Oh, senhora, no chore! Eu no posso agentar a verdadeira Branca
de Neve chorando bem no meio da minha sala! No h razo para chorar. Eu juro que
hei de encontrar Feiurinha! Nem que leve...
         Branca: A vida inteira? A no vai adiantar mais. Ns todas teremos
desaparecido. Eu terei desaparecido junto com os Anezinhos, com a Bruxa, com o
Prncipe e at com o Espelho Mgico!
         Escritor: Nada disso, Branca de Neve! Voc jamais desaparecer! Voc 
eterna como o sol, como a lua! A sua histria foi escrita por dois dos maiores artistas
da humanidade e  lida todos os dias por milhes de crianas no mundo todo, o tempo
todo! Voc est viva nas risadas das crianas, nas narrativas das vovs, na memria
dos adultos como eu, que jamais negaremos a beleza da sua histria!
        Vagarosamente, Branca de Neve levanta a cabea e dirige o olhar para o
Escritor a sua frente, ainda segurando-lhe as mos. Juntos, os dois compreendem o
que acontecera com Feiurinha.


        Escritor: Branca de Neve... Voc tambm entendeu? Entendeu agora por que
Feiurinha desapareceu?


        As outras Princesas o cercam. At Bela Adormecida.


        Escritor: Entendeu por que voc jamais desaparecer? E vocs todas,
Chapeuzinho, Rapunzel, Cinderela, Bela-Fera e Bela Adormecida? Vocs jamais
desaparecero! Vocs foram eternizadas nos livros pelos maiores artistas do mundo!
Suas vidas se renovam todos os dias quando os livros so abertos na frente dos olhos
de novas crianas, prontas a rir, a chorar e a se emocionar com as suas aventuras!


        A reao das Princesas no  a reao normal dos seres humanos. Elas
ficam na expectativa, como sombras, como anjos.


        Escritor: Perceberam por que Feiurinha desapareceu? Porque ningum
jamais escreveu sua histria! Porque as fantsticas aventuras dessa herona de
sonhos, por no estar escrita, no se renova atravs dos sculos nas risadas e nas
emoes das crianas! (Feliz, comea a danar com todas elas. Ri alto, e todas riem
com ele.) Feiurinha! Onde est voc, Feiurinha? Quem  voc, Princesa? Preciso
escrever sua histria, para que voc se torne eterna tambm! Minha felicidade seria
completa se eu pudesse descobrir voc, Feiurinha! Onde est voc, Feiurinha?


        A velha Jerusa entra em cena casualmente.


        Jerusa: Eh, que histria boa, no ? Sempre foi a minha preferida quando a
minha av reunia todo mundo para contar histrias ao p do fogo...
         Todas correm para Jerusa e imobilizam-se ao abra-la. O Escritor volta-se
para a platia.


         Escritor: Pois . O tempo todo eu procurara em todos os cantos, perguntara a
todo mundo, e, ao meu lado, estava algum que conhecia a histria de Feiurinha! Eu
tinha procurado a soluo do mistrio em todas as lonjuras, enquanto ela estava ao
alcance da minha vista e me servia o almoo todos os dias...


         As Princesas e Caio insistem com Jerusa.


         Rapunzel: Conte a histria da Feiurinha para ns, Jerusa, conte!
         Cinderela: Por favor, Jerusa!
         Chapu: Por favor!
         Jerusa: Ah, assim eu fico sem jeito...
         Bela-Fera: Ora, Jerusa, deixe disso...
         Branca: (Pegando as mos de Jerusa e as beijando:) Jerusa, por favor, conte
para ns. S voc pode trazer a Feiurinha de volta...
         Escritor: (Para a platia:) Jerusa no era de grandes letras e, talvez por isso
mesmo, tenha compreendido muito bem o que era ter Branca de Neve a seus ps,
beijando-lhe as mos. Compreendeu que Branca de Neve, Cinderela, Feiurinha e
tantas outras faziam parte de si como seu prprio sangue. Eram o seu passado e a
sua cultura. Compreendeu que aquelas heronas tambm faziam parte do sangue de
todos, ricos e pobres, negros e brancos, nascidos e por nascer. Compreendeu e
comeou a desvendar, para todos ns, o fantstico mistrio de Feiurinha...


         As heronas e Caio sentam-se no cho,  volta de Jerusa, que se senta em
uma banqueta.


         Jerusa: A histria da Feiurinha  dos antigos. Quem me contou, h mais de
sessenta anos, foi a minha av, que tambm ouviu a av dela contar. A histria da
Feiurinha era a minha preferida, com o perdo das Princesinhas... (Entra msica
suave.) Era uma vez, h muitos, muitos anos, uma menina muito linda que tinha
acabado de nascer numa casa muito pobre, mas cheia de amor e felicidade.


           A beleza da menina logo foi muito comentada e s se falava nisso em todos
os lugares. At num lugar distante, um lugar feio, escuro, tenebroso, chegou a fama
daquele beb to lindo. Naquele lugar, moravam sozinhas trs bruxas tremendas
chamadas Ruim, Malvada e... Piorainda. Elas tinham acabado de ganhar uma
sobrinha para criar, que tambm acabara de nascer. Mas o beb era horroroso demais
e as trs bruxas logo planejaram roubar a linda menina com seus poderes mgicos.
Sem de nada desconfiar, na pobre casa dos pais da menina, s havia alegria...


           Acende-se a luz na pobre casa dos pais de Feiurinha. A msica decresce e
entram em cena o pai e a me de Feiurinha, pobremente vestidos. Em um bero, est
o beb.


           Pai: Somos to pobres, mulher, mas agora temos um tesouro...
           Me: Um tesouro mesmo, meu marido! Nem a rainha tem uma filha to
linda...
           Pai:  mesmo, mulher. Valer a pena trabalhar ainda mais para criar esta
menina to linda...
           Me: Que nome vamos dar a ela, marido?
           Pai: No sei ainda, mulher. Temos de escolher um nome muito bonito. To
bonito quanto ela...


           Ouvem-se batidas na porta.


           Me: Esto batendo, marido. Quem poder ser?
           Pai: No sei, mulher. Talvez algum conhecido da aldeia que queira visitar
nossa nova filhinha...
           Me: V abrir, marido...


           O pai abre a porta. Surgem Ruim, Malvada e Piorainda. Vestem largos
mantos negros e esfarrapados. Na cabea, chapu de bruxa, com cabeleira e uma
meia mscara, que lhes cobre a testa, as faces e o nariz. Nariz de bruxa,
exageradamente grande e adunco. Falam falsa e educadamente.


         Ruim: Boa noite, meu bom homem. Ouvimos dizer que nesta casa nasceu
uma linda menina...
         Malvada: Linda! Muito linda, sim...
         Piorainda: E viemos fazer uma visitinha...
         Pai: Oh, mas que bom! Entrem, por favor. No vo reparar... A casa  to
simples... Casa de gente pobre...
         Malvada: Com licena...
         Ruim: (Indo at o bero.) Que gracinha! Bilu, bilu, bilu!
         Piorainda: Posso pegar no colo?
         Me:  claro...  vontade...
         Piorainda: (Pegando o beb.) Agora, Malvada!
         Malvada: (Fazendo gestos cabalsticos.) Cu escuro e trovoada...
         Pai: Cu escuro? Mas o tempo est to bonito...
         Malvada: Cu escuro e trovoada!
          Noite suja, noite escura!
          Estes dois vo ficar duros!
          Duros feito rapadura!
          Zim! Zam! Zum!


         Efeito de exploso de gelo-seco em volta dos pais. Os dois ficam imveis.


         Ruim: Ah, ah, ah! Conseguimos, irmzinhas!
         Piorainda: Ah, ah, ah! Esta beleza agora  nossa!
         Malvada: Ah, ah, ah! Que gracinha! Agora esta gracinha  nossa!
         Ruim: Ningum mais vai se derreter com esta menina, Piorainda!
         Piorainda: Ningum mais vai fazer bilu, bilu, Ruim!
         Malvada: Linda! Linda! Ela vai crescer na nossa choupana! Ela vai aprender!
Ela vai aprender a ser feia!
         Ruim: (Aponta para os pais, paralisados.) Estes dois vo despertar daqui a
pouco, Malvada. E vo procurar pela filha, desesperados. Mas ningum jamais poder
encontrar esta menina!
          Malvada: L em nossa choupana, nenhuma gente ou bicho tem coragem de
se aproximar. Esta menina vai crescer junto s corujas, aos ratos e aos morcegos!
          Piorainda: A menina vai ser criada junto da nossa sobrinha, que acabou de
nascer.
          Ruim: Coitadinha! Nossa sobrinha  o beb mais feio do mundo...
          Malvada: J nasceu birolha, caspenta e com dente cariado...
          Piorainda: E verruga no nariz!
          Ruim: Belezinha...
          Piorainda: E esta aqui? Como vamos chamar?
          Ruim: Ela tem de aprender a ser feia, Piorainda! O nome que vamos dar-lhe
tem de lembrar a ela, o tempo todo, que ela  horrorosa! Linda somos ns e a
Belezinha!
          Malvada: Grande idia, Ruim!
          Piorainda: E que nome  esse?
          Ruim: A menina vai chamar-se... Feiurinha!
          Malvada: Feiurinha! timo! Feiurinha!
          Piorainda: Feiurinha! Feiurinha! Ah, ah, ah! Como ns somos terrveis!
          Malvada: A beleza agora  nossa!
          Ruim: O meu nome  Ruim!
          Malvada: O meu nome  Malvada!
          Piorainda: O meu nome  Piorainda!


          Black-out. Quando a luz  novamente acesa, estamos na choupana das
bruxas. As trs esto  mesa. Passaram-se quinze anos, e a mida Belezinha est
com as tias. Crnio e velas sobre a mesa. Sombras de animais empalhados e tudo o
mais que possa parecer lgubre. As trs riem muito e mexem em frascos de bruxa.


          Ruim: Ah, ah, ah! Amanh  o aniversrio de quinze anos da nossa sobrinha.
Quinze anos, Belezinha!
          Belezinha: Quero uma festa, titia Ruim! Uma festa bem tremenda!
        Piorainda: Ui, como ns somos terrveis!
        Malvada: Sabem o que eu estou lembrando agora? Amanh tambm  o
aniversrio de quinze anos da Feiurinha...
        Ruim: Da Feiurinha? Ah, ah, ah! Como vamos nos divertir!
        Piorainda: Vamos comear j! Onde anda a Feiurinha?
        Malvada: Est l fora, areando o caldeiro!
        Piorainda: Vamos nos divertir um pouco! Chame a Feiurinha, Belezinha!
        Belezinha: Feiurinha! Aqui! J, j!


        Entra Feiurinha.  uma jovem muito linda, pobremente vestida.


        Feiurinha: Ouvi chamar... Aqui estou...
        Ruim: O que estava fazendo, Feiurinha? Estava sonhando em vez de
trabalhar?
        Malvada: Sonhando com o qu? Com a sua beleza?


        Durante toda a cena, Belezinha gargalha e rodeia Feiurinha, atormentando-a.


        Feiurinha: Eu... eu estava areando o caldeiro... Eu...
        Piorainda: E no estava sonhando com nada?
        Feiurinha: Eu... eu estava pensando...
        Malvada: Pensando? Pensando em qu?
        Feiurinha: Eu estava pensando na minha feira...
        Piorainda: Isso mesmo! Na sua feira! Ns, sim, somos lindas!
        Ruim: Ns somos a regra!
        Malvada: Voc  a exceo!
        Piorainda: Voc  feia demais!
        Feiurinha: Sei disso... S conheo vocs quatro. Vocs so to lindas...
Enquanto eu... sou to feia!
        Ruim: Ih! Voc devia se envergonhar!
        Malvada:  isso mesmo! Nunca vi garota to feia!
        Piorainda: Voc  um horror!
           Todas rodeiam Feiurinha, pulam, cutucam a menina, do-lhe belisces,
puxam-lhe os cabelos.


           Ruim: Veja s os seus dentes! Todos iguaizinhos, enfileiradinhos como
idiotas!
           Malvada: Coisa horrorosa!
           Piorainda: No so como o nosso, que  nico, escuro e cariado!
           Feiurinha: No! Por favor! No!
           Ruim: E os seus cabelos, ento? Louros e macios! Parecem uma seda
nojenta!
           Malvada: Coisa horrorosa!
           Piorainda: Agora veja s os nossos cabelos! Isso sim que  coisa linda! So
grossos, sujos, espetados e cheios de caspa!
           Ruim: E os piolhos! No esquea dos piolhos!
           Piorainda: E esse nariz? Retinho, pequeno e delicado!
           Malvada: Coisa horrorosa!
           Ruim: Os nossos sim, que so lindos! Veja s: enormes, curvos, enrugados,
que chegam quase at o queixo!
           Piorainda:  isso: voc  mesmo um horror!
           Ruim: Uma vergonha! Uma feira!
           Todas: Feiurinha! Feiurinha!
           Malvada: E a verruga, ento?
           Feiurinha: No! Por favor! A verruga, no!
           Belezinha: A verruga, sim! Voc no tem nem uma verruga!
           Piorainda: Nem uminha s!
           Malvada: Coisa horrorosa!
           Ruim: E olhe as nossas! Craquentas e cabeludas! Lindas!
           Todas: Feiurinha! Feiurinha!


           Danam em volta da menina. Por fim, Belezinha estende a perna, fazendo
com que Feiurinha tropece e caia. A menina chora.
           Piorainda: Ui, como ns somos terrveis!
           Ruim: Agora ns vamos sair, Feiurinha. Faa o seu trabalho e no se afaste
daqui. Lembre-se: beleza s existe aqui, na nossa choupana. Longe daqui, voc s
vai encontrar feira e coisas horrorosas como voc! Lembre-se!
           Belezinha: Feiurinha! Ah, ah, ah!
           Piorainda: Ui, ui, ui! Como ns somos terrveis!


           Belezinha mostra-lhe a lngua. Malvada d-lhe um pontap e todas saem,
gargalhando. Feiurinha chora e levanta-se. Pega um balde e vai  direita do palco,
onde h algumas pedras, dando a impresso de que h um lago alm delas. Ao lado
das pedras est o Bode, que pode ser uma marionete simples, com movimentos
simples.


           Feiurinha: Ai, como eu sou feia! Ai, como eu sou infeliz! (Pega o balde e o
"mergulha" atrs das pedras, como se o enchesse com as guas do "lago".) Ah, amigo
Bode... Voc  a minha nica companhia... S voc ouve as minhas queixas... E voc
 to lindo... Lindo como as minhas madrastas... Voc  velho, sujo e cheio de pulgas
e piolhos... Voc  to lindo e fedido como as minhas madrastas. Mas voc no judia
de mim... Voc no vive lembrando que eu sou feia... Voc no me chama de
Feiurinha... (O Bode se esfrega na perna de Feiurinha, como um cachorrinho.
Feiurinha se mira nas "guas" do "lago".) Voc parece me compreender, amigo Bode.
Veja minha imagem refletida na gua do lago. Veja como eu sou feia... No tenho
verruga. Nem uminha... Nem uma pinta que possa disfarar um pouco a minha feira.
Como eu sou infeliz, amigo Bode! Belezinha e minhas madrastas at que tm razo
em brigar tanto comigo. Para elas, deve ser duro morar a vida inteira com um ser to
feio, to horroroso e repugnante como eu! Se ao menos eu tivesse uma verruga! Uma
verruguinha s, para mostrar a elas que eu no sou to feia assim... (Comea a
procurar nos prprios braos. Arregaa a saia e procura nas pernas.) Deixe ver...
Quem sabe no nasceu uma verruguinha em alguma parte? (Continua procurando e
fica de costas para a platia. Por fim, deixa cair o vestido para mirar-se nuazinha nas
guas do rio. Essa cena, embora difcil,  importante. Sugere-se que, no fundo do
palco, possa estar o "lago", cercado por "pedras" de papier mch, que nada mais
ser que um spot no cho, iluminando de cima para baixo. No momento em que
Feiurinha, de costas, deixar cair o vestido, que dever sair com facilidade,
desabotoando-se na frente, apaga-se o resto do palco e, como a atriz est entre a luz
do "lago" e a platia, ficar apenas silhuetada  vista do pblico. Assim, bastar que
ela esteja vestindo uma malha da cor da pele para que o efeito se produza.). Nada,
querido Bode! Nem uma pintinha! (Um estrondo, exploso de gelo-seco e o Bode
desaparece atrs das pedras do "lago". Produze-se uma nuvem de fumaa, de dentro
da qual surge o Prncipe.  um rapaz belssimo, alto e forte. Veste-se normalmente,
como um campons medieval. Feiurinha pegou o vestido e cobriu-se com ele. Como o
Prncipe est fora dos padres de beleza conhecidos por Feiurinha, a menina se
assusta.) Voc... voc  alto, e forte, e musculoso... Seus dentes so brancos... Seus
olhos so verdes como a luz do amanhecer...
        Voc... voc nem ao menos  birolho como a Piorainda... Como... como voc
 horroroso! Socorro!


        O Prncipe corre para ela e a abraa.


        Prncipe: Por favor, no fuja, Feiurinha! Eu passei esses anos todos ao seu
lado, sonhando com este momento! Eu sou um Prncipe Encantado que foi
transformado em bode pelas trs bruxas. Sua beleza me libertou da maldio!
        Feiurinha: Beleza?! Mas eu sou horrorosa!
        Prncipe: Voc  o anjo mais lindo da Terra, Feiurinha! Eu assisti, esses anos
todos,  crueldade dessas bruxas que a enganaram, fazendo-a pensar que o feio 
bonito e o bonito  feio. Elas sim so um horror! Eu vou mostrar-lhe a verdade. Voc
vai ver que o mundo todo cair de joelhos frente  sua beleza!
        Feiurinha: Voc... tem certeza?
        Prncipe: Voc vai ver, Feiurinha. Me espere. Vou voltar ao meu reino para
retomar as posses e a fortuna a que tenho direito. Logo virei busc-la. Espere por
mim! Vamos nos casar, e seremos felizes para sempre! Para sempre!
        Feiurinha: Para sempre, meu Prncipe...
           Cai a luz e sobe a msica. Quando a luz volta, Feiurinha j est novamente
na casa das bruxas, vestida, servindo o jantar. Entram as quatro bruxas.


           Belezinha: Ento, Feiurinha? Ainda est infeliz? Hein? Ainda est bem
infeliz?
           Feiurinha: Oi, Belezinha! Oi, minhas madrastas! Vocs j voltaram!
           Ruim: (Percebendo que algo est diferente:) Voc fez todos os servios?
Todas as tarefas?
           Feiurinha: Sim, madrasta Ruim. Fiz tudinho...
           Malvada: J preparou as asas de morcego? J depenou a coruja para o
jantar?
           Feiurinha: Sim, madrasta Malvada...
           Piorainda: J cozinhou fgado de sapo para o almoo dos urubus?
           Feiurinha: J, madrasta Piorainda.
           Ruim: (Chamando as outras de lado:) Alguma coisa aconteceu por aqui.
Vocs notaram? Ela no parece triste, como deveria estar...
           Malvada:  mesmo, irm Ruim. O que ter acontecido?
           Piorainda: Vai ver ela j se acostumou com as nossas provocaes. Temos
de inventar novas maldades!
           Belezinha: Deixe comigo! Vou falar da verruga!
           Ruim: Isso, Belezinha! Ela vai chorar, na certa!
           Malvada: Na batata!
           Piorainda: Ui, como ns somos terrveis!
           Belezinha: E ento, Feiurinha? Notou como est linda minha verruga hoje?
Me disseram, na cidade, que nunca tinham visto uma verruga to linda...


           Feiurinha sorri e nada diz.


           Ruim: Que horror! Ela est... est sorrindo!
           Malvada: Alguma coisa aconteceu por aqui...
           Piorainda: Ei, irms! Olhem em volta. No est faltando alguma coisa?
           Belezinha: Faltando? O que est faltando?
           Ruim: O Bode!  isso! A danada desencantou o Bode!
           Piorainda: Deve ter ficado pelada na frente do Bode, a sem-vergonha!
           Ruim: Ah, pode deixar! Eu vou lanar um feitio que...
           Malvada: Espere! Temos de agir com cautela. Chegou a hora de usar a pele
de urso!
           Belezinha: A pele de urso? Que horror! Que maravilha!
           Piorainda: Ui, como ns somos terrveis!
           Ruim: Feiurinha, onde est o Bode, Feiurinha?
           Feiurinha: O Bode? No sei...
           Malvada: No sabe? Eu acho que voc sabe, sim...
           Piorainda: Eu acho at que voc desenfeitiou o Bode...
           Feiurinha: Eu... eu juro que...
           Ruim: Ora, Feiurinha, no tenha medo! Ns sabemos que voc desenfeitiou
o Bode...
           Belezinha: E era justamente isso que ns queramos...
           Feiurinha: Justamente o que queriam? Eu... no estou entendendo...
           Malvada:  isso mesmo, minha querida. Ns espervamos, esse tempo todo,
que voc salvasse o Prncipe...
           Piorainda: Ns queramos que voc salvasse o Prncipe!
           Feiurinha: Ento... por que no me disseram antes?
           Ruim: Porque no podamos. Se contssemos, o seu poder de desencantar
bodes perderia o efeito...
           Feiurinha: Mas o Prncipe disse que foram vocs mesmas que o enfeitiaram!
           Malvada: Ele... disse isso? O que foi que ele disse?
           Feiurinha: Ele disse que foi transformado em bode pelas trs bruxas...
           Piorainda: Ento, Feiurinha, no somos ns! Ele disse trs bruxas. E ns no
somos bruxas. Ns somos... somos...
           Ruim: Fadas! Ns somos... erh... fadas!
           Belezinha: Isso! Somos fadas!
           Feiurinha:  mesmo? Que bom! Ento vocs vo ficar muito felizes em saber
que o Prncipe prometeu casar comigo. Foi recuperar o reino dele e volta j, j, pra me
levar com ele!
        Malvada: Mas que maravilha! Ento precisamos preparar voc para o
casamento. Piorainda! V buscar a pele de urso!
        Feiurinha: Pele de urso?
        Ruim:  uma surpresa que estamos guardando para voc, querida.
        Belezinha: Voc vai adorar!


        Piorainda volta com a pele de urso. Por dentro deve haver uma cabeleira de
bruxa, com o chapu e a mscara.


        Piorainda: Aqui est, querida Feiurinha!
        Malvada: Este  o nosso presente de casamento!
        Ruim: Quem vestir esta pele de urso ser linda para sempre e feliz para toda
a eternidade!
        Feiurinha: Obrigada! Vocs so to bondosas... No precisavam se
incomodar!
        Piorainda: Incmodo nenhum, queridinha...  nossa obrigao...
        Belezinha: Vamos, vista!


        De costas para a platia, Feiurinha veste a pele de urso. Abaixa a cabea,
vestindo a cabeleira, o chapu e a mscara de bruxa. Efeito de exploso de gelo-seco,
fumaa e tudo o mais. Feiurinha volta-se para a platia transformada em bruxa.


        Feiurinha: Socorro! O que aconteceu comigo?


        As quatro bruxas pulam de alegria e danam felizes em volta da nova
companheira.


        Belezinha: Ah, ah, ah! Agora voc  uma de ns!
        Ruim: Esta pele de urso  o feitio mais poderoso da Terra!
        Malvada: Torna velha uma mulher jovem...
        Piorainda: ... e feia se ela for linda!
        Feiurinha: No! No!
            Belezinha: Pensou que podia fugir da gente? Ah, ah! Pois fuja agora!
            Ruim: E no adianta tentar tirar a pele de urso!  um feitio poderosssimo
que s pode ser desatado por uma certa espada de prata!
            Piorainda: Ui, como ns somos terrveis!
            Malvada: Onde esto seus dentes brancos, Feiurinha?
            Piorainda: Cad seus cabelos de seda?
            Belezinha: E seus olhos de gua?
            Feiurinha: No! No!
            Ruim: Agora voc j tem verrugas! Ah, ah!
            Malvada: No est contente, Feiurinha? Vamos, dance com a gente!
            Belezinha: Agora somos cinco! Ah, ah, ah!
            Piorainda: Ui, como ns somos terrveis!


            Feiurinha cai de joelhos e esconde o rosto nas mos.


            Feiurinha: No! Oh, no!
            Belezinha: Feiurinha! Agora voc  a bruxa Feiurinha!
            Ruim: Para sempre!
            Malvada: Para sempre!
            Piorainda: Ui, como ns somos terrveis!


            Ouvem-se galopes de cavalos. Todas param de fazer barulho. Feiurinha
ergue a cabea. Ouvem-se clarins e entra o Prncipe, ricamente vestido e de espada
na cinta.


            Todas: O Prncipe Encantado!
            Prncipe: Suas bruxas malvadas! Onde est a Feiurinha?
            Feiurinha: (Correndo para ele:) Sou eu, meu amor! Essas malvadas me
transformaram em bruxa! Salve-me!
            Belezinha: No acredite nela, meu querido! Feiurinha sou eu! Eu  que fui
enfeitiada!
            Malvada: (Agarrando-se s vestes do Prncipe:) No! Sou eu a Feiurinha!
No acredite em mentiras! Case comigo!
        Ruim: Todas elas mentem, meu Prncipe! Eu sou a Feiurinha! Voc tem de
casar comigo!
        Piorainda: Feiurinha sou eu! Sou eu! Fui enfeitiada para engan-lo! Case
comigo! Voc prometeu!
          Prncipe: (Desembainhando a espada de prata:) Suas ruindades! O que
fizeram com a minha amada? S uma de vocs est falando a verdade. Todas as
outras mentem. Quando eu descobrir quem so, juro que vou cortar a cabea de todas
com esta espada!
        Piorainda: Isso mesmo! Case-se comigo e mate as outras!
        Belezinha: No! Comigo! As outras devem morrer!
        Malvada:  comigo que ele vai casar! Morte s outras!
        Ruim: Comigo! Que morram as outras!
        Feiurinha: (Ajoelhando-se e abraando-se s pernas do Prncipe:) No, meu
amor, no faa isso! Elas so malvadas, mas me criaram desde pequenininha. Me
judiaram e me fizeram trabalhar demais, mas eu no quero mal a elas. Pelo meu amor,
poupe a vida delas!
        Prncipe: (Pegando Feiurinha pelos ombros e levantando-a:) Meu amor! S
voc pode ser a Feiurinha! S uma menina maravilhosa como a Feiurinha poderia ser
to generosa! O que essas malvadas fizeram com voc?
        Feiurinha: Elas me fizeram vestir esta pele de urso.  um feitio que me
transformou em bruxa. S pode ser desatado por uma certa espada de prata...
        Prncipe: Ento, que essa espada de prata seja a minha espada!


        O Prncipe saca a espada e corta os cordes que atam a pele de urso.
Exploso de gelo-seco. Cai a pele e surge Feiurinha.


        Bruxas: Aaaaaahhhh!


        Ouve-se um grande trovo. Mais gelo-seco e as bruxas transformam-se em
quatro grandes cogumelos. Isso pode ser feito com quatro guarda-chuvas pintados.
        Prncipe: Feiurinha!
        Feiurinha: Meu Prncipe Encantado!


        Feiurinha e o Prncipe abraam-se. Beijam-se candidamente. Sobe a msica
e apaga-se a luz de cena, acendendo-se sobre o Escritor. Ele se volta para a platia,
falando entusiasmadamente e em "crescendo".


        Escritor: Feiurinha foi levada para o reino encantado do Prncipe e encontrou
seus verdadeiros pais, que j estavam velhinhos, mas no tinham perdido a
esperana de reencontrar a filha. A festa de casamento foi a maior de que se tem
notcia e durou trs dias e trs noites. Assim, com a multido gritando, com as
trombetas trombeteando, Feiurinha casou-se com o Prncipe Encantado e eles
viveram... Ah, que histria maravilhosa! Como foi bom descobrir essa histria! Que
maravilha ter desvendado o fantstico mistrio de Feiurinha! Agora j posso escrever
a histria e quem sabe poderei faz-la reaparecer. Quantas histrias lindas,
inventadas e contadas ao p do fogo em noites de inverno por vovs imaginosas
perderam-se, foram esquecidas, por falta de algum que as escrevesse. E, mesmo
escritas, por falta de algum que as lesse! Ser que, se eu escrever a histria da
Feiurinha, algum vai ler? E ser que muitos outros vo continuar lendo para sempre,
para que Feiurinha no desaparea nunca mais? Preciso caprichar...


        Talvez, de acordo com o tipo que o ator que fizer o Escritor tiver criado, nesse
momento o personagem possa se dirigir s crianas da platia, perguntando:


        Escritor: Ser que voc vai ler? Vai? E voc? Voc vai defender os
personagens dos contos de fadas? Vai defender as heronas? E voc? E voc...


        As Princesas entram em cena e cercam o Escritor, que j est sentado  sua
mesa de trabalho, na frente da mquina de escrever. Cercam-no e colocam as mos
em seus ombros, como para dar-lhe foras. Feiurinha senta-se a seus ps e recosta a
cabecinha em sua perna. O Escritor comea a escrever  mquina.
        Escritor: Era uma vez, h muitos, muitos anos, uma linda menina que foi
raptada ainda no bero por trs bruxas malvadssimas...


        O rudo da mquina de escrever vai se somando  msica de encerramento,
o som aumenta, abafando a voz do Escritor. Black-out.




        Pequeno Glossrio do Teatro

        Voc j viu ou participou de uma pea de teatro? Sabe como se chamam os
profissionais que trabalham nela e o que cada      um     faz?   Muitas   pessoas   j
definiram ou tentaram definir os termos do mundo do teatro. Mas no  fcil, no.
Fizemos uma seleo de palavras-chave, com a inteno de que voc possa conviver
com o teatro, lendo, sentindo, atuando, discutindo, dirigindo, experimentando a sua
prpria criao.
        Lembre-se de que  muito importante consultar o dicionrio para que voc
compreenda melhor os textos e enriquea o seu vocabulrio.




        -- A
          Ator/atriz: aquele(a) que representa uma personagem.


        -- C
          Cenrio: conjunto de materiais e efeitos de luz, som, formas, que servem
para criar um ambiente propcio para a pea teatral.
          Cengrafo(a): aquele(a) que cria o cenrio.
          Comdia: pea teatral em que predominam a graa e o humor.
          Coregrafo(a): aquele(a) que cria a seqncia de movimentos, passos e
gestos das personagens.


         -- D
          Diretor(a): responsvel artstico pela pea teatral,  aquele que integra e
orienta os diversos profissionais.
          Drama: pea teatral em que o cmico se mistura com o trgico.
         Dramaturgo: escritor que compe peas teatrais.


         -- F
          Figurinista: responsvel pelas roupas e acessrios utilizados na pea teatral.


         -- I
          Iluminador(a): aquele(a) que concebe e planeja a colocao das luzes numa
pea teatral.


         -- M
          Maquiador(a): responsvel pela pintura do rosto ou do corpo dos atores ou
das atrizes.
          Mmica, ou pantomima: pea em que o(a) ator (atriz) se manifesta por
gestos, expresses corporais ou do rosto, sem utilizar a palavra.


         --P
          Pea: texto e/ou representao teatral.
          Personagem: o papel representado pelo ator ou pela atriz.
          Platia: espao destinado aos espectadores.
          Proscnio: palco, cena.


         -- R
          Rotunda: pano de fundo, de flanela, feltro, etc.
        -- S
            Saltimbanco: artista popular que se exibe em circos, feiras, ruas,
percorrendo diversas cidades.
            Sonoplasta: aquele que compe e faz funcionar os rudos e sons de um
espetculo teatral.


        -- T
            Teatro: palco onde se representam peas; coleo das obras dramticas de
um(a) autor(a), uma poca ou um pas.
            Teatro de bonecos: aquele em que se fazem representar marionetes ou
fantoches.
            Titeriteiro: aquele que movimenta o fantoche ou a marionete.
            Tragdia: pea capaz de provocar terror e piedade nos espectadores.
            Trupe: grupo de artistas.




        Quem  Pedro Bandeira

        Nasceu em Santos em 1942 e mora em So Paulo desde 1961, onde
estudou Cincias Sociais e exerceu vrias atividades sempre ligadas  comunicao,
como o teatro, a publicidade, a editoria e o jornalismo, at dedicar-se, desde 1983,
somente  criao literria para crianas e para jovens. Tem publicaes no exterior e
vrios prmios literrios, como o Jabuti, o APCA e o Adolfo Aizen.
        Pedro Bandeira  uma daquelas pessoas que chamam de "escritor" s
porque ele inventa histrias para voc. J que ele as inventa, fica claro que essas
histrias no aconteceram, no ? Por isso, ele no passa de um contador de
mentiras.
        Algumas de suas mentiras viraram peas de teatro: Feiurinha, A marca de
uma lgrima, Telmah.
        Todo o resto  verdade.




        Quem  Avelino Guedes

        Desde que eu me conheo por gente, o desenho faz parte da minha vida.
Ainda bem criana, rabiscava meus monstros, vampiros, caubis e minhas princesas.
Desenhar  algo que toda criana faz, mas apenas algumas pegam gosto pela coisa.
Eu fui uma dessas. Mas no imaginava que isso pudesse ser um meio de vida. E
acabei trabalhando como desenhista de vitrines, de cartazes e em agncias de
publicidade. Por fim, abandonei a publicidade e resolvi me dedicar somente 
ilustrao. Desde ento fiz um monte de livros.




                                    Fim da Obra
